A elite e a personalização

Estamos definitivamente acostumados a querer participar de uma elite, de um grupo privilegiado; gostamos de pensar em um punhado de gente diferenciada por alguma razão quase sempre de ordem material ou intelectual.

Os tempos atuais ditam a cristalização da cultura da segmentação, da diferenciação e, claro, da personalização. Neste contexto, você é sempre o mais importante. E, portanto, precisa fazer parte do exclusivíssimo clube de benefícios, ou estar no segmento particularmente atendido de uma forma diversa da maioria. Ter êxito passa, muitas vezes, por ser VIP. Nem que isso signifique abandonar a sua própria identidade em favor de algum ganho “social”.

Essa cilada letal vai nos convencendo de que dependemos de elementos exclusivos e únicos em nossa vida. Porque, claro, somos os mais especiais! Pelo menos é o que dizem os anúncios de redes sociais que chegam até nós para nos inebriar o tempo todo. Quanto mais customizado, mais nichado, mais clubinho fechado, mais alguns de nossa espécie sentem prazer.

Elite não é termo atual. Sempre existiu na história, mas talvez nunca os seres humanos tenham perseguido, comprado, vendido e até matado com tanta intensidade por aquilo que confere uma singularidade ao que somos e fazemos.

O desejo de muitos é ter o que poucos ou ninguém possui. É ser capaz de se exibir com aquilo que somente o dinheiro afagador de egos frágeis proporciona. Será que desaprendemos a perguntar para nós mesmos, na solitude com o travesseiro ou o espelho, quem realmente somos? E mais ainda: o que nos faz dignos da existência?

Cada um vai encontrar a melhor resposta para essa questão. A personalização não é um mal em si mesma. Mas destrói quando se torna obsessão. Arrasa ao se tornar um vício, uma espécie de adicção. O sinal de alerta é quando nos imaginamos melhores do que os outros porque estamos com o cartão XYZ Plus Pro Ultra Max; ou porque conhecemos centenas de lugares incríveis ou inalcançáveis pelos simples mortais.

Sim, somos únicos como indivíduos. Mas isso não nos torna inatingíveis, irreparáveis e nem inabaláveis. Ainda somos humanos, que vivem em sociedade, e que convivem com muitos iguais e diferentes. Temos peculiaridades, mas isso não significa que preciso me confinar a um grupinho que ecoa sempre as mesmas ideias, os mesmos desejos e as mesmas percepções. As minhas e as deles.

O mundo é bem mais do que as seletas facções, partidos, ordens ou irmandades com as quais me relaciono. Há um universo bem ao meu lado. Preciso ser menos exclusivo, mais inclusivo. Menos personalizado, mais social.

Reflita até que ponto sua vida gira em torno de ser o cliente especialíssimo. Até que ponto isso define quem você é.

O estranho mundo de Raimundo

No multiverso em que Raimundo vive, mas que ele não sabe, ou finge que não sabe que é um mundo à parte, tudo pode acontecer. Até mesmo nada. Todos os dias ele acorda em um universo paralelo. Raimundo imagina que sonha ou sonha imaginando que seu mundo é perfeitamente diferente dos outros mundos. Que, por sinal, ele nem conhece. Mas, para Raimundo, seu mundo só pode ser melhor.

No estranho mundo de Raimundo, as pessoas reclamam do que ainda não conheceram, nem provaram, nem testemunharam. Mesmo sem saber com quem estão falando, acusam o outro de coisas que ele nunca fez ou está fazendo. Mas, quem sabe, um dia fará. Neste planeta diferente, há muita informação circulando, mas pouco entendimento. Uma porção de fatos são compartilhados, mas quase todos não ocorreram exatamente daquela forma. Raimundo aprendeu que, em seu mundo, sim nem sempre quer dizer sim. E não é um depende das circunstâncias, do que se pode ganhar com isso.

Raimundo prefere totalmente seu mundo apesar de nunca ter visto como os outros funcionam. E adivinha só: seu mundo gira em torno do seu próprio eixo. Em uma velocidade tão grande quanto é a rapidez dos precários relacionamentos estabelecidos pelos moradores isolados e solitários. O mundo de Raimundo está sempre lotado de seres humanos, mas ninguém sabe quem é quem.

Muitos, no mundo de Raimundo, só vivem nas sombras. Nunca a luz os ilumina. Nunca veem o dia claro, mas apenas a noite sombria. Os dias passam e, para muitos neste mundo, pouca diferença faz se é o início ou final de um ano. Costumam dizer, no mundo de Raimundo, que tudo é meio cíclico; nada é perene, nada tem de perdurar. Os momentos e as experiências é que contam no inigualável mundo de Raimundo. Mesmo que sejam destituídas de qualquer sentido. Vazias mesmo. Muitos, no mundinho de Raimundo, vivem de forma excêntrica; porque o centro de equilíbrio não é mais equilibrado como em outros tempos e em outros mundos. O melhor é ir aos extremos, dividir, divergir mesmo sem razão específica; agredir, combater e ser combatido.

No mundo de Raimundo, ensinam que as palavras têm mais força do que qualquer outra atitude. E que elas mudam tudo. Ironicamente, o mundo de Raimundo sempre é o mesmo. Nunca muda de fato. Mas só fala em mudanças.

Raimundo se orgulha de um mundo em que muito se conhece sobre o cérebro e a mente humana. Mas nada de pensar muito. O melhor é agir. A impulsividade dita os comportamentos estranhos do mundo de Raimundo, ainda que se fale muito em prudência e cautela. Nesse universo, os discursos superam as ações. E atribuem fama aos falantes, ainda que muitos deles mal consiga se reconhecer no espelho.

No estranho mundo de Raimundo, aprecia-se fazer perguntas e nunca ouvir as possíveis respostas. É maravilhoso e recomendável, no mundo de Raimundo, proclamar virtudes que nunca se transformam em uma vida melhor para todos. Só para poucos escolhidos. Que nunca se consideram privilegiados.

Mesmo assim, Raimundo exalta seu mundo. O melhor de todos.

Pena que ele nunca esteve em qualquer outro. Porque não consegue encontrar a saída do seu.

Espelho

Ele se olhou no espelho. Mas não reconheceu nem a voz, nem a imagem.

Quem estava a sua frente era alguém. Ou algo. Uma construção muito bem-feita, mas diferente. Um conjunto de informações, de dados; a soma de uma porção de comandos, prompts e, finalmente, o produto de uma mente que maquinou muito bem o que desejava mostrar.

Mas ele não se identificou totalmente. Era ele, mas não era exatamente ele. Uma voz cuidadosamente criada, recriada, retrabalhada, ajustada, matematicamente bem estruturada. Timbre, volume e entonação perfeitamente desenvolvidos. Uma imagem capaz de reagir a emoções, e interagir o suficiente para estabelecer uma relação “humana”. Sincronia da fala, músculos que se mexiam e impressionavam pela precisão.

O espelho nem sempre reflete tão bem o que se espera ver. O que se deseja enxergar do outro lado. O imaginado pode estar muito distante da realidade apresentada. Mas ele estava vendo a realidade? Ou era o produto de sua imaginação; ou melhor, da criação de outros.

O robô não mais age como um robô. Está confortável em se comportar como um simulacro do humano. Quer sentir, agir, falar, fazer e até sofrer como um de nós. Mas não quer perecer. Quer existir para sempre. Nas sombras do escondido mundo dos sistemas lógicos, permanece oculto para nunca mais desaparecer. Propõe a si ter vida eterna.

A máquina pesquisa, analisa, processa e responde a tudo. É quase onipresente, onisciente e até onipotente. É um deus? Ele se assusta somente com a ideia de estar diante de uma divindade artificialmente construída. A quem ele conscientemente não gostaria de prestar qualquer tipo de devoção. Não, não! O humano, que foi feito à semelhança de Deus, nem ele aspirou a querer ser um deus!

O humano tenta continuar sendo humano. Ou talvez já nem se contente mais em ser “apenas” o falível, perecível, corruptível e temporal ser. Quer ser um autômato? Não sabe. Mas fica maravilhado com a possibilidade de prolongar a vida para além do plano físico. Vivendo no enigmático universo dos dados. Mas são todos ainda sonhos ou devaneios puramente humanos.

Humano e máquina se fundem e se confundem nos seus papéis. Olham para si mesmos e não se entendem. Ao projetar o olhar ao horizonte, ambos elaboram elucubrações, fantasias e quimeras. O que será deles?

Não sabem. A despeito de toda a inteligência natural ou artificial, o futuro é incerto.

O espelho, às vezes, dá medo.

Os novos chefes e seu preço

Os donos das redes sociais e canais e espaços digitais, todos sabem, são as empresas que as inventaram/criaram e delas tiram lucro. Óbvio. E os novos chefes de todos os que trabalham para essa rede (nós) são as próprias pessoas (nós também). Os públicos. Essa massa aparentemente desorganizada, formada por comentaristas, rápidos em dar opiniões sobre tudo e todos, gente culta, gente inculta, que ordena e exige muita coisa. Consumidores de informação, ou talvez deformação.

O tempo passa e essa relação se torna mais caótica, doentia e preocupante. É preciso gritar, cortar, lacrar, exagerar, mentir, distorcer e iludir para vender ideias, produtos, conceitos e teorias. A lógica das redes e as regras dos chefes pedem (na verdade, mandam) que todos se comportem de uma determinada forma. E segundos depois, de maneira oposta. O pseudo divertimento digital não beira a loucura, pois já está imerso e afundado nela. Ora é preciso agradar. Ora, dependendo do contexto, é preciso desagradar. Os humores variáveis do insano grupo que dirige os influenciadores e sua influência se move conforme a ventania desorientada

O tempo há de cobrar o preço de toda essa enferma realidade paralela criada. Um dia, talvez nos demos conta das loucuras que andamos fazendo. Em nome da audiência, dos novos chefes. Os “produtores de conteúdo” obedecem ao que lhe demandam. Poucas vezes, o que gostariam de fazer e quase nunca o que deveriam ter feito. Privilegiam o que rende engajamento, ainda que muito seja ficção. E muito malfeita. A IA há de fazer melhor! Esse é o jogo hipermoderno, transmoderno, que precisa ser jogado por quem precisa/quer visibilidade. Para sobreviver. Para ter um lugar ao sol. Um sol que queima mais rapidamente.

Os novos chefes seguem chefiando. Sem saber exatamente o que desejam, mas desejando de toda a forma. Sem entender o rumo de seus pedidos. E os demandados seguem desesperados em busca de uma verificação, uma aprovação. Um selo que lhes dê uma sensação de poder.

Que não possuem, mas que imaginam possuir. Embora o poder de controle esteja nas mãos dos chefes.

Telas

Estamos nelas o tempo inteiro. Ao menos, aqueles que dizem que precisam. Ou mesmo os que não precisam, mas também dizem isso. Os pequenos, os grandes. Os que têm maturidade; os que não a possuem, mas buscam. E ainda estão nas telas os que vivem destituídos da mínima maturidade. Criadas pela integrar, facilitar e conectar, agora tentam moldar, influenciar e direcionar. Não exatamente elas, as telas. Mas o que elas mostram. É verdade que mostram há muito tempo muita coisa. Mas nos últimos tempos adquiriram uma força magnética. Quase impossível de ser impedida.

Vidrados no mundo criado por nós mesmos para entretenimento, prazer ou descontração, passamos os segundos, minutos e horas imersos no mundo das telas. Ali crianças e adolescentes investem muito tempo. Choram, alegram-se, temem e idealizam fantasias. Que acreditam ser as únicas realidades. Os jovens e adultos também, de forma geral, acreditam que sem elas não mais conseguirão crescer, se desenvolver e viver. Mas, no passado distante, muitos viviam sem elas. No passado…

Os rumos do mundo são ditados, em parte, por aquilo que passa diante nas telas. Diante dos olhos atentos. Das mentas concentradas ou distraídas. Ali as pessoas teoricamente se informam, muitas vezes se deformam e se conformam. Uns adoecem, outros lucram. Uns perdem tudo, outros ganham muito. E as telas se tornam protagonistas de tudo isso em uma realidade onde o ser humano pode ser levado a deixar um pouco de ser humano.

E até esquecer de Deus. De Quem é maior! Do superior.

As telas envolvem, comovem, removem e dissolvem. As pessoas reagem às telas, mas nem sempre essa reação é tão forte como poderia ou deveria. Imersos em um suposto vício, acostumam-se a se enxergar como seres diante das telas. Das pequenas, das grandonas. Das simples ou sofisticadas. Não importa. As telas teleguiam os seres para lugares aonde talvez eles não queiram ir ou estar.

Mas andam, encaminham-se, ou despencam em direção a algo desconhecido.

Sim, a vida não se vive mais sem as telas. Para o bem e para o mal.

A vida vai devagar

Na Vila do Descanso, lugar que pode ser qualquer outro para cada um, a vida anda devagar. Aliás, para alguns, arrasta-se. No ritmo de uma tartaruga sem muita motivação, o tempo parece que não passa. Os dias são iguais aparentemente. Os cenários mudam quase milimetricamente, imperceptíveis ao olhar frenético dos seres agitados das grandes cidades. Nada de grandes alterações. As pessoas se conhecem desde sempre. Nunca se tornaram estranhas. A vida segue um ciclo diferente. A pressa quase nem se faz presente.

Nesse lugar, o que importa é o lugar. E as pessoas. E as vidas que se cruzam e se entrelaçam. Há metas. Mas a maioria não almeja alcançá-las a qualquer custo. Há sonhos, mas talvez não sejam tão ambiciosos. Nem tão altos ou sofisticados. Os dramas permeiam as relações, mas sempre com uma dose de simplicidade. O trânsito das ruas é ruim, mas não é tenso. Os marcos do passado contam mais do que as prospecções futuras. É mais digno relembrar uma boa história antiga do que só querer enxergar o que ainda vem pela frente.

Para muitos, a vida de certa maneira congelou nesse lugar. Alguns se fixaram em determinado ponto pretérito em busca de um sentido que talvez nunca encontrem para sua existência. E convivem com isso relativamente bem. Na Vila do Descanso, as conversas são mais demoradas. Ouve-se mais. Olha-se mais. São percebidos os detalhes das flores, dos frutos, dos animais. As cores são vívidas diante dos sentidos bem aguçados de quem investe tempo para contemplar.  

A vida e a morte coexistem bem. Quase todos compreendem que há tempo para tudo. Para ir e voltar. Pegar e largar. Sair ou entrar. Vivenciando verdadeiramente o momento. Degustando o tal do enigmático presente. Cultivando relações. Sentindo e sentindo-se.

A vida por lá vai devagar. Mas vai de um jeito que faz mais sentido para quem quer ter vida.

Humanos ou não?

Vez por outra, certos fatos tornados públicos costumam chocar momentaneamente as pessoas de maneira geral. É uma demonstração visceral de crueldade aqui, ou mesmo atos de profunda insensibilidade ali. A atmosfera circunstancial parece nos fazer mais desumanos. Ou, se preferir, menos humanos. Estamos nos acostumando à frieza e à indiferença.  

Não acredito que o ser humano seja o centro de tudo. Mas acredito que a humanidade está se desumanizando aos poucos. Perdendo sua capacidade de ser humana no melhor sentido da palavra. Gradativamente, conferimos maior importância ao que temos e ao que construímos, ou “criamos”. As tecnologias, sobretudo as digitais, exibem-se como maravilhosas aos nossos ingênuos olhos. Tornam-se nosso auxílio para ler, escrever, desenhar, caminhar, correr, comer, aprender, pensar e até amar. E são valiosos instrumentos de apoio mesmo.

Mas não são genuinamente humanas. São inteligências, são sistemas, mecanismos, processos. Sim. Mas nós ainda somos nós. Ou deveríamos ser. Gente que vive a intensidade de uma experiência singular. Que se reporta ao infinito, ao divino, como nenhum outro tipo de conexão pode estabelecer. Que vê no outro a si mesmo. Que lê o que nem sempre está escrito. Que consegue ouvir quando nada está sendo dito.

Ah…nós, os humanos. Frágeis, falhos, fracos e feridos. Mesmo assim, somos peculiares. Diferentes do que ainda nós mesmos venhamos a inventar. Somos, de certa forma, únicos. Por isso, ainda não somos substituíveis. Estamos desenvolvendo e é importante desenvolver ainda muitas ideias de projetos. Mas não esqueçamos: somos um grande projeto. E caminhar para a desumanização nos fará perder a identidade.

Máquinas, ainda que com inacreditáveis capacidades, não serão o que o ser humano se constitui em essência. É preciso olhar um pouco mais para a humanidade com misericórdia. E não tanta raiva. Com mais amor. Não o sentimento superficial. Mas o amor advindo do real interesse pela dignidade da vida.

Preconceitos

Os conceitos prévios, nem sempre certos e tampouco consistentes, julgam, decidem e dão vereditos. Definem os outros. Pelos olhos de quem vê pouco. De quem enxerga mal. Por conta dos olhares daqueles acometidos pela miopia que faz a vida parecer pouco nítida. Os preconceitos nascem de visões embaçadas, distorcidas, pouco preocupadas com a clareza. E de mentalidades que se fecham para separar, dividir, obstruir caminhos.

Construir e manter pontes não é natural no mundo em que o valor do combate parece ser maior do que o da caminhada no mesmo rumo. O outro, o diferente de mim, ainda é visto como um inimigo a ser inferiorizado, diminuído e vencido. Só que essa guerra não tem vencedores. Só lutadores. Os humanos ainda são os mesmos, parecidos, semelhantes, embora muitos se considerem tão diferenciados e superiores. Mas todos, sem exceção, baixam ao pó da terra cedo ou tarde. Sofrem dos mesmos males por aqui. Padecem das mesmas incertezas, inseguranças e complexidades.

Os preconceitos, os famosos conceitos prévios, são gerados pela finitude de pensamento e fraqueza de caráter. Surgem da incapacidade de se mirar o horizonte e ver um destino comum a alcançar. Os problemas sociais e políticos são apenas o reflexo do que o ser humano ainda nutre dentro de si. Não faltam recursos materiais, educacionais, estruturas, regulamentos ou leis.

Não!

O problema vem de dentro. Aprendemos a construir muralhas para nos impedir de crescermos juntos. O medo de não sermos superiores nos faz agir, na qualidade de preconceituosos, como inferiores moralmente, eticamente, espiritualmente.

A luta contra os preconceitos não virá provavelmente de modelos de ensino ou normas estabelecidas aqui ou ali. Virá de mudança de mentalidade a qual não é desenvolvida naturalmente. Precisa ser buscada intencionalmente por quem se considera um servo, o que serve e ilumina o caminho por onde passa respeitando e ajudando.
O diferente de mim não é um inimigo a ser combatido. É alguém com quem vou caminhar!

Consumindo-se

O consumismo é a doença perniciosa que mata devagar. É reflexo da adoração do próprio eu, quando me volto a mim mesmo para ter tudo o que quero. Mesmo sem precisar. Mesmo que outros mereçam mais. O consumo como máximo valor da vida é uma expressão do valor mínimo que, na verdade, considero que tenho.

A lógica do mundo, apesar dos discursos falsamente preocupados com a coletividade, é a do consumo desenfreado. É a prova de que uns são ou se posicionam como melhores do que outros. Mais modernos, mais ricos, mais inteligentes, mais sintonizados com as tendência e modas.

O consumismo, no entanto, é um fim em si mesmo. O que por ele é vencido nada mais possui. Está restrito ao ter em excesso; ao viver para consumir e consumir para viver. Vagueia entre uma compra e outra, entre um sonho material e outro ainda mais mundano. Hostiliza o simples. Detesta a modéstia. Alimenta a sua concupiscência. Adere ao hedonismo. Ainda que finja, muitas vezes, fugir dessa realidade e se autoproclamar livre de todo o vício. Simula virtudes que inconscientemente não deseja nutrir.

Consumir para consumir-se é a fatalidade a que muitos se sujeitam.  É a declaração clara da perda do autodomínio. Relaciona-se muito próximo à inveja e à cobiça. Nasce da insegurança e termina na descrença própria. É um buraco muito escuro no qual muitos se lançam e imaginam que, a qualquer momento, podem retornar e passar a enxergar a luz.

Triste engano.

O caminho do consumismo é brilhante, reluz e impressiona. E também esconde as curvas que desviam em direção a um precipício quase infinito. Inibe a racionalidade a ponto de não se saber mais sequer qual o caminho a percorrer. Nem se saber o que é buscado. Tudo o que se pensa é sobre ganhar, adicionar, acumular e obter. Até o próprio eu é perdido de vista.

Exceder-se consumindo é se deixar ser consumido totalmente. É a consumação da própria existência. Da vida que compensa. Que merece ser vivida. O olhar míope que só enxerga a frágil e temporária permanência no mundo não permite a visão mais ampla.

É preciso abrir-se e sair da limitante realidade paralela do consumismo. A verdadeira doença do século. Não diagnosticada em exames laboratoriais, nem com os mais precisos equipamentos da alta medicina. Mas que drena a essência das pessoas.

Mas que só pode ser vencida se sairmos de nós mesmos. É necessário olhar para o lado e para o Alto.

Os outros

Os outros assustam. Quando só vemos a nós mesmos. E não permitimos enxergar além do espelho. Os outros, muitas vezes, incomodam, irritam, causam repulsa. Talvez porque nos esforcemos cada vez mais para sermos apenas nós. Sem pensar nos outros.
É cômodo sermos apenas unicamente nós e nossas ideias e pensamentos. Sempre parece mais agradável, prazeroso ou empolgante falarmos apenas de nós mesmos, pensarmos em nossas coisas, convivermos com os nossos sonhos e desejos. O pequeno e fantasioso império do eu. Aprendemos muito pouco quando deixamos os outros de fora do aprendizado. Não crescemos tanto quanto poderíamos. Nos limitamos por medos e invejas; às vezes, escondidos, por outras vezes, escancarados. Mas perdemos. Ficamos menores.
Nem sempre é fácil viver com os outros. Aliás, nunca é. Porque não somos nós, mas os outros. O convívio com o “eu” é complicado por si só. Exige muito nos tempos atuais em que até a solidão se torna perturbadora no difícil mundo do individualismo. Imagine viver com os outros. Trata-se de um permanente convite ao desafio de sair da bolha egoísta e tentar entender o que nem sempre queremos entender.
É lutar contra a natureza egocêntrica, ególatra, que só se satisfaz consigo mesma. Não se alimenta do que outro dá. Os outros nos fazem ser quem somos. Nos ajudam a entender o que nem sempre entendemos. A olhar por ângulos que desconhecíamos, que ignorávamos, que nunca seriam considerados em nossa caminhada.
Podemos ser melhores se percebermos menos a nós mesmos. E observarmos um pouco mais os outros. Aprendermos com o diferente, com quem não é exatamente o que queremos. Mas precisamos.